24 de maio, 2022

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Ai que saudades do alimento barato

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

Aqui e no resto do mundo, os preços dos alimentos disparam. E disparam mais só porque dispararam. Veja as razões.

O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que atingiu a máxima histórica em março, encerrou abril com média de 158,5 pontos – 36,4 pontos acima do registrado no mesmo mês de 2021. Nestes quatro meses e pico deste ano, as cotações do trigo em dólares saltaram 45,7%; do milho, 36,5%; e as da soja, 23,1%.

Alimentos e combustíveis são os itens que mais vêm puxando a inflação em todo o mundo. Neste ano, os preços dos alimentos que compõem o custo de vida medido pelo  IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) subiram 7,05%. Não são apenas os preços dos combustíveis que seguem o critério de paridade internacional (cotações em dólar convertidos em reais pelo câmbio da hora). Também os dos alimentos seguem esse regime, mas ninguém reclama disso. Embora produzidos com custos em reais, os preços do óleo de cozinha, os das rações animais e os das carnes também sofrem o impacto das cotações da Bolsa de Chicago e do câmbio.

Três fatores explicam quase tudo nessa disparada. Os preços começaram a subir quando a economia mundial começou a se recuperar da pandemia e a demanda aumentou. E foram catapultados com a guerra na Ucrânia, país que possui terras de grande fertilidade, mas agora está devastado e paralisado pela invasão das tropas russas. Na última semana, a Ucrânia acusou o governo russo de sumir com alguns dos seus estoques de trigo.

A guerra produziu mais dois efeitos diretos: aumento da desorganização dos fluxos de comércio e queda da importação de cereais (trigo, centeio e semente de girassol) da Rússiaem consequência das sanções econômicas.

O segundo fator de alta global tem a ver com problemas climáticos na China, na Índia e nos Estados Unidos, que castigam a produção, mas com impacto ainda a ser mensurado.

O terceiro fator que explica a disparada é a reação defensiva dos governos cada vez mais preocupados com a segurança alimentar. Se espalham pelo mundo o protecionismo comercial e o reforço dos estoques, para evitar desabastecimento.

A alta só não é maior porque a China foi obrigada a desacelerar sua economia para enfrentar o novo surto de covid-19. E porque, com a guerra, o resto do mundo também passa por certa redução da atividade econômica.

No Brasil, não há riscos de desabastecimento. Não se espera nem mesmo falta de fertilizantes. As safras baterão novos recordes. Só os preços que foram para a lua.

Falta saber qual será o impacto eleitoral do brutal encarecimento do pão e do prato de comida do brasileiro.

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