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Grandes eventos do esporte ignoram as crises mundiais

O alto custo dessas promoções esportivas é um autêntico desafio

 

12.jun.2018

Copa do Mundo da Rússia está aí, começa na quinta (14). É sempre assim, o planeta ferve a cada quatro anos com o futebol.

Nada, nenhum tipo de crise –econômica, social, política ou até mesmo guerra– reuniu forças para impedir o interesse pelo direito de organizar Copas e Olimpíadas nas últimas sete décadas. O alto custo dessas promoções esportivas é um autêntico desafio.

Estádios da Copa – Estádio Lujniki 

Vista área do estádio de Lujniki, em Moscou. Arena foi inaugurada em 1956 e recebeu a abertura da Olimpíada de 1980 – 24.mar.2018 Dmitry Serebryakov/AFP

Depois da Segunda Guerra Mundial, que interrompeu a sequência desses dois grandes eventos internacionais, a Olimpíada de Londres-1948 marcou a abertura da nova etapa.

Ocorreram alguns sustos nesse percurso. A Colômbia, em 1986, era a escolhida para sede da Copa, mas depois desistiu deixando no ar uma discordância das exigências da Fifa (Federação Internacional de Futebol). O México abraçou o evento, valendo-se da estrutura que havia utilizado para a competição de 1970.

Outros riscos estiveram na pauta, em especial das Olimpíadas, mas não passaram de ameaças, protestos e boicotes parciais como os registrados em Montrèal-1976, Moscou-1980 e Los Angeles, quatro anos depois. Até mesmo o sangrento atentado executado por grupo palestino contra israelenses em Munique-1972, que causou comoção mundial, não arregimentou força suficiente para cancelar os Jogos em andamento.

A Fifa tem encontrado uma situação mais confortável do que o COI (Comitê Olímpico Internacional) para a definição das sedes das Copas. É incomparável a força e prestígio do futebol. Nesta quarta (13), por exemplo, a cartolagem vai escolher o local da Copa-2026 entre dois concorrentes. Pleiteiam o evento uma candidatura tripla (EUA-Canadá-México) e outra africana, do Marrocos.

O Catar foi a escolha para sede da Copa-2022, embora a opção tenha sido nebulosa e polêmica. Como um país sem nenhuma expressão no futebol conquistou esse direito? Bastou ser endinheirado.

Para dificultar o entendimento desse enredo, as altas temperaturas naquela região são outro dos pontos negativos. A cartolagem, estranhamente, não viu obstáculo.

O COI, por sua vez, passou por aperto pouco tempo atrás ao encarar o gigantismo atingido pelas Olimpíadas, que provocou aumento assustador das despesas para os países responsáveis pela organização do evento.

Candidaturas, que já estavam encaminhadas em campanhas de escolha de sedes, foram retiradas depois de análises mais detalhadas das estimativas de custos e necessidades dos projetos dos Jogos. Também em função de riscos, várias iniciativas de dirigentes esportivos e de políticos acabaram derrubadas por manifestações das populações de cidades envolvidas.

Diante de incertezas que despontaram, o COI tratou de mudar seus regulamentos, reduzindo exigências e abrindo o debate para redução de custos. Para evitar obras desnecessárias, prováveis elefantes brancos após as disputas, a entidade passou a permitir o reaproveitamento de instalações existentes e a utilização de construções temporárias, menos custosas. A Olimpíada do Rio foi a última dentro do conceito anterior, agora superado.

Cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016 – Bob Martin – 7.set.2016/AFP

Além disso, o COI conseguiu driblar a incômoda situação, ao adotar inédita atitude, a de aceitar numa só tacada a definição de sedes consecutivas para os Jogos de verão: Paris-2024 e Los Angeles-2028.

As duas cidades entraram no pleito para 2024. O receio de que a perdedora abandonasse a intenção de nova disputa no futuro motivou a mudança de postura. O COI promoveu um acordo, garantindo projetos de alto nível para Olimpíadas consecutivas. Antes, os Jogos acontecerão em Tóquio-2020.

Já as Olimpíadas de inverno também seguem seu curso. A última delas foi disputada recentemente em PyeongChang, na Coreia do Sul, e a próxima será em Pequim-2022. Há ensaios de várias candidaturas para 2026, contudo, sem uma proposta para valer até o momento.

Um deles, inclusive, acaba de ser torpedeado pelos resultados provisórios de pesquisa entre eleitores do cantão de Valais, na Suíça. A concessão de verba reivindicada para possível campanha de candidatura foi rejeitada.

Apesar dos perrengues, a única certeza dos grandes eventos é que a Fifa e o COI estão sempre por cima, lucrando. As despesas caem no colo dos organizadores, que avançam no bolso dos contribuintes para pagá-las. Veja a situação da Copa no Brasil. Consumiu R$ 33,3 bilhões (corrigidos pela inflação), enquanto a receita da Fifa foi de US$ 4,8 bilhões (R$ 17,8 bilhões).

Desconheço o lucro do COI na Olimpíada do Rio, mas os gastos ultrapassaram R$ 40 bilhões, segundo valores atualizados em junho de 2017. O esporte empolga, depois vem o aborrecimento com as salgadas faturas. Uma nova festa vai começar, só que a conta agora é da Rússia. Mesmo assim, dá para sorrir com os grandes eventos do esporte mundial

 

Edgard Alves

Jornalista esportivo desde 1971, participou da cobertura de seis Olimpíadas e quatro Pan-Americanos.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/edgardalves/2018/06/grandes-eventos-do-esporte-ignoram-as-crises-mundiais.shtml

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