22 de abril, 2024

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O PSDB e o mundo vasto mundo

Carlos Melo

Fernando não amava Geraldo, que não amava José, que não amava João, que, embora disfarçasse, também não amava Geraldo, que desconfiava de João, que também não amava Fernando, que não amava José, que nunca morreu de amores por Aécio, que penava a falta de carinho. O desamor espalhou-se e já não havia naquele ninho quem amasse alguém.

Fernando encontrou em Luciano um novo amor. Com o pesado do jogo, Luciano voltou para TV. José, antes tão incisivo, sumiu de cena. João partiu para mais uma aventura, agora no governo do estado. Em desespero, Aécio observava a tudo, mas divertia-se com Geraldo também ralando no seu áspero. Geraldo sentiu um bafejar na nuca. Era Joaquim, uma espécie de J. Pinto Fernandes que ainda não tinha entrado na história.

Numa história de tanto desamor, o PSDB procura remontar os destroços de um mundo que parece ter-lhe desabado das mãos. Mas, a destruição não foi criativa. Fragmentou-se de vez. Vive em ebulição. Maquiavéis de almanaque plantam maldades na horta das colunas de política. Desqualificam o próprio candidato, na ilusão de substituí-lo. Mas, não há força, unidade ou Inteligência para isto.

Geraldo Alckmin preside o partido, tem o comando do cartório, mas o certo é que não o lidera. Remedia conflitos pensando em si mesmo, mas o todo é um desajuste de dar dó. Como o personagem de Vargas Llosa, apreensivos os tucanos se perguntam: ”em que momento tudo se fodeu, Zavalita?”. Há menos de um ano, a vitória parecia tão certa…

Com método, tenacidade e disciplina, os tucanos erraram ao longo de todo processo. Foram consistentes nos equívocos que cometeram. Visto daqui, desde abril de 2018, as perspectivas para o partido são sombrias.

Em São Paulo, capitania hereditária, correm risco. O candidato para o estado pontua nas pesquisas de intenção e rejeição. Personagem controverso, parte da Capital não quer ouvir seu nome. O interior ainda não o conhece. Cabeças brancas se afastam. Não há quem jure lealdade. O braço-direito de Alckmin, Saulo de Castro, por exemplo, ficou com Márcio França.

Em Minas, segundo eleitorado, na esperança de esquecer Aécio, as fichas foram postas em Antônio Anastasia. Mas, o senador é notório de mais para ser esquecido. ”Com a chave na mão [Aécio] quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais”. No desalento, o espírito de Drummond tem rondado os tucanos.

Em âmbito nacional, qualquer vento mexe arbustos e assusta: Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Henrique Meirelles, Álvaro Dias, até Michel Temer na vanguarda da míngua. Tudo é pedra no caminho — novamente Drummond. E agora PSDB?

É certo, o ambiente é tão confuso que o inesperado e o ridículo do cotidiano em que o país vive é que podem favorecer. Richard Back, arguto analista e bom amigo, costuma dizer que Geraldo é ”o campeão do ‘resta 1”’. Os defeitos de seus adversários são sua maior virtude. Mas, não há time, não há foco, nem estratégia.

A indecisão em relação ao governo Temer, salgou a terra: o PSDB ficou, saiu, mas o governo não saiu da pele dos tucanos. Há um ano, na desgraça de Aécio Neves, para salvar o membro, os magnatas optaram por cortar o pescoço. Gastei bitscom isso (rememore aqui).

Desenergizados, signo da despaixão, os tucanos neste momento seguem cabisbaixos. Aparentam ter perdido mais que o PT. Política é irônica — e cruel —, tudo é decisão e timing. No lapso da sorte, podem até vencer a eleição. Mas, não conduzem o processo; quem os navega é o mar.

***

Ao contrário de Lula — maior que o PT —, Alckmin sempre foi menor que o PSDB. Se ficou maior, foi porque o partido decresceu. Honesto, não desperta rancores na intensidade de seus adversários, sem ativar, no entanto, o amor dos outros. O estilo sacristão não faz inimigos, tampouco atrai amigos. Sílaba átona, não é nota que soa.

De instinto conservador, não é tão conservador (e reacionário) quanto Jair Bolsonaro. É capaz de conviver com a diversidade. Mas, isto o deixa pelo meio do caminho, sem que o compreendam ou assimilem. Na economia, está longe do voluntarismo intervencionista de Dilma, sem causar, porém, suspiros de laissez-fair nos liberais do mercado. Seu choque de capitalismo não prescinde da existência ativa do Estado.

Num mundo de extremos, como fazer compreender nuances?

Sem o charme de FHC, a determinação de José Serra ou a soberba agressiva de João Doria, o estilo Alckmin não deixa marcas. Por 14 anos governador do maior estado do país, não se consolidou no debate nacional. Preferindo crer que ”jogava parado”, cometeu autoengano. Não é um Gerson. Não há vantagem na omissão.

Na maior crise da história, se quedou perplexo entre ser e não ser. Sem bônus, restou o ”ônus Temer”, o ”custo Aécio”, que carrega como bolas de chumbo nos tornozelos. Quixote, jogado à sorte dos próprios sonhos, é o meio-ponto, o meio-termo, o ”resta 1”. ”Mundo, mundo, vasto mundo…” Melhor é ler Drummond.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.UOL.

 

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