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Perigo à vista

Eduardo Anizelli/Folhapress

Mobilizações cidadãs podem surgir com uma nova paralisação de caminhoneiros

 

4.set.2018

Com a perspectiva de uma nova paralisação dos caminhoneiros, surge também no horizonte a possibilidade de vermos mobilizações cidadãs como as que acompanharam o protesto da categoria, em maio, e que foram organizadas por grupos da nova direita, que hoje estão alinhados com a candidatura de Jair Bolsonaro.

paralisação dos caminhoneiros de maio foi na verdade dois movimentos simultâneos sobrepostos. De um lado, uma paralisação corporativa exigindo benefícios para a categoria, como a redução do preço do diesel, o tabelamento do preço do frete e uma alteração na cobrança dos pedágios.

Mas ela foi também uma mobilização popular ressignificando a paralisação como protesto contra o preço dos combustíveis em geral, a corrupção no país e o governo Temer.

A mobilização jamais teria conquistado a força que teve se sua dimensão popular não tivesse agido como salvaguarda da manifestação corporativa. Foi porque o protesto conquistou 87% de apoio, segundo o Datafolha, que se tornou politicamente inviável debelar os bloqueios nas estradas por meio da ação policial.

Tabela da polêmica

Após 11 dias de paralisações e manifestações dos caminhoneiros, o presidente Temer editou a Medida Provisória 832 e a ANTT instituiu a Resolução 5.820. Ambas determinam uma política de preços mínimo para fretes terrestres.

Na dimensão popular do protesto, a ação organizada de grupos de direita foi decisiva. Eles montaram uma ampla rede de grupos deWhatsApp nas cidades que funcionaram como apoio aos piquetes que aconteciam nas estradas. Em muitos lugares, essa mobilização cidadã foi mais importante para o sucesso dos bloqueios do que ação dos caminhoneiros.

Quando Michel Temer firmou o último acordo e a paralisação chegou ao fim, esses grupos de WhatsApp permaneceram como um legado da mobilização —e essa extensa e multifacetada rede tem sido utilizada por propagandistas da candidatura de Jair Bolsonaro.

Numa campanha eleitoral, o uso do WhatsApp não deve se restringir àqueles grupos militantes que já estão convertidos à causa, mas precisa criar vasos comunicantes com meios sociais mais heterogêneos. Essa rede de grupos de discussão criada em maio parece estar justamente cumprindo esse papel.

O que o governo Temer prometeu para os caminhoneiros?

Desconto de R$ 0,46 centavos no preços do diesel (valor corresponde à soma dos valores do PIS/Cofins e da Cide) Zanone Fraissat/Folhapress

Embora muitos desses grupos já estejam sendo usados para propaganda do candidato, se uma nova mobilização emergir, os usuários passarão a prestar mais atenção nas mensagens e os grupos podem receber novas adesões de cidadãos eleitoralmente indecisos.

Além do mais, é preciso lembrar que a paralisação de maio impôs um duro ônus à população, com limitações ao transporte público e desabastecimento nos supermercados, e o alto índice de apoio aconteceu a despeito dessas dificuldades, o que mostra o caráter resoluto do protesto popular.

Um novo levante neste momento, com características semelhantes e a poucas semanas das eleições, pode ter efeitos eleitorais perigosos.

 

Pablo Ortellado

Professor do curso de gestão de políticas públicas da USP, é doutor em filosofia.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/pablo-ortellado/2018/09/perigo-a-vista.shtml

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