Assembleia reuniu empresas do varejo de gêneros alimentícios para discutir pautas dos comerciários e definir estratégia de negociação
O Sincovaga realizou em sua sede, no dia 19 de agosto, a primeira Assembleia Geral Extraordinária do processo de negociações coletivas 2026/2027 com as empresas do comércio varejista de gêneros alimentícios do Estado de São Paulo. O encontro marcou oficialmente o início das discussões sobre as reivindicações apresentadas pelas entidades representantes dos trabalhadores (Fecomerciários, SEC-SP e SECOR) e os encaminhamentos para a construção das novas normas coletivas.
Antes da abertura formal da assembleia, o economista Fábio Pina apresentou aos participantes uma análise do cenário econômico brasileiro e das perspectivas para o fim de 2026 e 2027, com destaque para o endividamento das famílias, comportamento do consumo, inflação, juros, situação fiscal e os possíveis impactos do período eleitoral sobre a economia.
Segundo Pina, apesar de indicadores ainda positivos no mercado de trabalho, há sinais de perda de fôlego da atividade econômica. Ele chamou atenção especialmente para o nível de endividamento das famílias e para o comprometimento crescente da renda dos consumidores.
Na avaliação do economista, o varejo deve acompanhar com atenção a capacidade de consumo das famílias. Ele destacou que o endividamento elevado, combinado com a redução do ritmo de crescimento da renda, pode pressionar as vendas e exigir maior cautela das empresas na gestão financeira.
Pina também avaliou que o ambiente econômico para 2027 tende a ser mais desafiador, especialmente diante das incertezas fiscais e do processo eleitoral. Para ele, embora ainda seja possível um cenário de “pouso suave” da economia, será necessário acompanhar de perto os indicadores de consumo, liquidez e confiança.
Outro ponto abordado durante a apresentação foi o impacto de eventuais mudanças na legislação trabalhista, especialmente em relação à redução da jornada e à escala 6×1. Pina alertou para os possíveis efeitos sobre os custos das empresas.
Segundo ele, uma eventual redução da jornada semanal sem redução proporcional dos salários pode representar aumento significativo do custo da hora trabalhada. Na avaliação apresentada aos empresários, a mudança exigiria atenção especial do varejo, setor que depende de operação contínua e de equipes distribuídas ao longo dos dias e horários de maior movimento.
A reforma tributária também esteve entre os temas analisados. Pina avaliou que a transição para o novo sistema deverá trazer desafios de adaptação para as empresas, especialmente para aquelas que estão no Simples Nacional e no regime de lucro presumido.
Negociação começa com cautela
Após a apresentação do cenário econômico, foi iniciada a Assembleia Geral Extraordinária, com a leitura da ordem do dia e a discussão dos poderes necessários para a condução das negociações coletivas.
Entre os pontos submetidos aos participantes estavam a autorização para negociar com as entidades representativas dos comerciários e de categorias profissionais diferenciadas, a possibilidade de celebração de normas coletivas relativas a períodos anteriores, além da autorização para eventual solicitação de mediação junto ao Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Tribunais Regionais do Trabalho.
Na abertura das discussões, o presidente do Sincovaga, Álvaro Furtado, destacou que as reivindicações apresentadas pelos trabalhadores serão analisadas à luz da realidade econômica enfrentada pelas empresas.
Furtado ressaltou que o objetivo neste primeiro momento é iniciar o diálogo e avaliar as possibilidades de negociação, sem antecipar resultados ou compromissos. O presidente também mencionou a possibilidade de discutir alternativas durante o processo, incluindo a manutenção de determinadas condições atualmente previstas nas normas coletivas e eventuais ajustes que possam contribuir para a construção de um entendimento entre as partes.
Jornada de trabalho é ponto de atenção
A possibilidade de mudanças na legislação sobre jornada de trabalho e escala 6×1 foi apontada durante a reunião como um dos temas que poderão influenciar diretamente as relações trabalhistas no varejo.
Para o setor de gêneros alimentícios, que mantém operações em horários ampliados e registra forte movimento nos fins de semana e feriados, alterações na jornada podem produzir impactos relevantes sobre a organização das equipes e os custos operacionais.
A avaliação apresentada na assembleia foi de que qualquer alteração legislativa precisa considerar as características específicas de setores que dependem de atendimento contínuo ao consumidor.
Além da negociação com os comerciários, o Sincovaga também discutirá as relações com categorias profissionais diferenciadas. Durante a assembleia, foi mencionada ainda a possibilidade de utilização de mecanismos de mediação institucional caso sejam necessários ao longo do processo.
Próximos passos
A assembleia também tratou das contribuições destinadas à representação e ao processo de negociação coletiva, incluindo proposta de reajuste de 5% sobre a tabela anterior da contribuição assistencial-organizacional, além da criação de um valor específico para empresas com apenas um empregado.
Ao final, ficou definido que o Sincovaga dará continuidade às tratativas com as entidades representantes dos trabalhadores. Novas reuniões e convocações deverão ocorrer à medida que as negociações avancem.
O encontro reforçou a disposição da entidade patronal de conduzir o processo de forma técnica e cautelosa, levando em consideração tanto as reivindicações dos trabalhadores quanto a capacidade econômica das empresas.
Para o varejo de gêneros alimentícios, a negociação 2026/2027 ocorre em um momento de transição e incertezas, marcado por mudanças econômicas, tributárias e trabalhistas. Nesse contexto, o Sincovaga pretende buscar uma solução negociada que preserve a competitividade das empresas e, ao mesmo tempo, permita avançar nas relações de trabalho.