20 de julho, 2024

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Qual é a graça, presidente?

Os números divulgados ontem para o Produto Interno Bruto (PIB) confirmam alguns fatos de há muito conhecidos, mas que vale a pena repetir. Não é, em si, o crescimento baixo registrado ao longo do ano passado que preocupa tanto, mas sim a renitência dos problemas que impedem a economia de decolar, como sempre é prometido no início de cada ano.

Num mundo que passou a encarar nos últimos anos a desigualdade como um de seus maiores desafios – e ninguém pode negar que se trata mesmo de uma questão essencial –, é triste constatar, mais uma vez, que o Brasil continua preso a uma armadilha de crescimento baixo que o impede de resolver o problema anterior: a pobreza.

Na essência, continuamos a patinar no principal indicador que poderia impulsionar nossa capacidade de crescimento: os investimentos, tecnicamente identificados pela rubrica Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). Ela variou apenas 2,2% no ano passado e ficou em 15,4%, aproximadamente o mesmo patamar em que está desde 2016. Três anos antes, estava em 21%.

Apenas para comparar: estamos no mesmo nível de Gana ou Guiné Equatorial, segundo os últimos dados do Banco Mundial. Abaixo de Peru (21%), Colômbia (21%), México (23%), Argentina (21%) ou Chile (23%). Para não falar na China (44%), Índia (31%), Indonésia (35%) ou Uzbequistão (40%). A economia brasileira não poderá crescer mais – nem gerar mais empregos para tirar mais gente da pobreza – sem resgatar uma capacidade de investimento no mínimo comparável à dos nossos vizinhos latino-americanos.

Como prevê a teoria econômica, a curva de investimento segue paralela à de poupança. Em 2013, o Brasil poupava pouco mais de 18% do que produzia. Foram 12,2% em 2019, ligeira queda em relação a 2018. O brasileiro poupa menos, o país investe menos e, portanto, gera menos emprego e menos riqueza. Não há mágica. Nosso crescimento baixo deriva em grande parte daí.

Na falta de poupança interna, é preciso ter a capacidade de atrair capital externo para projetos nas áreas de infraestrutura, indústria ou serviços. Nesse ponto, é até possível discernir boas notícias na barafunda de números divulgados pelo governo nos últimos meses.

Os investimentos estrangeiros diretos alcançaram, segundo o Banco Central, mais de 5% do PIB em 2019, alta em relação ao patamar de 3% registrado dois anos antes. Um relatório das Nações Unidas constatou aumento de 26% nos investimentos externos no Brasil ano passado, em virtude do programa de privatizações do novo governo Jair Bolsonaro, que na prática mal começou a engatinhar.

Por que continua tão difícil investir no Brasil? A resposta não está nos números do IBGE ou do Banco Central. Está na dificuldade que o Ministério da Economia tem tido para implementar um programa consistente de reformas que facilite a vida do investidor, seja ele brasileiro ou estrangeiro. A principal delas é a tributária, capaz simplificar nossa impenetrável estrutura de impostos, que faz do Brasil um dos piores do mundo para fazer negócios.

Infelizmente, a visão do Executivo para a reforma tributária diverge dos projetos em andamento no Congresso Nacional. Num momento em que o país parecia maduro para enfrentar enfim questões como a guerra fiscal ou o patamar de taxação sobre consumo e riqueza, um enfrentamento estéril em torno do imposto sobre transações financeiras tomou conta do debate. Como resultado, a reforma tributária estagnou.

O presidente da República e seu círculo mais próximo continuam a dar prioridade à guerra cultural com que pretendem transformar o Brasil num país mais conservador. A incapacidade inata de Bolsonaro para lidar com as questões econômicas ficou, mais uma vez, evidente ontem na tentativa de incentivar os jornalistas que dão plantão na porta do Palácio da Alvorada a perguntar “o que é PIB?” a um humorista que lhes distribuía bananas. Os números de ontem voltaram a mostrar que não há do que dar risada.

 

 

https://g1.globo.com/mundo/blog/helio-gurovitz/post/2020/03/05/qual-e-a-graca-presidente.ghtml

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