21 de julho, 2024

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Saudades do que não vivi

Foto: Roque de Sá/Agência Senado

José Renato Nalini*

Confesso que assistir ao espetáculo da política brasileira no presente momento me faz sentir saudades daquilo que não vivenciei. Ou seja, da nossa experiência monárquica. Aumenta, a cada dia, minha simpatia pela família imperial. O Brasil ainda não se redimiu da crueldade perpetrada contra Pedro II, um estadista que não encontrou paralelo na tumultuada História da República ainda não republicana em que nos encontramos.

Tenho lido tudo o que se escreveu a respeito dele e sinto crescer minha admiração e respeito. Era um homem sereno, humilde, modesto, mas sábio. Cercado de áulicos e estes têm por ofício o ato de trair. São como varejeiras em torno a um corpo do qual possam extrair sustento. Mudam de imediato quando se alteram as circunstâncias. Os que ocuparam cargos de mando têm experiência. Só adquirida depois de deixarem as funções.

Pois essa família Orleans e Bragança não possuía escravos. Todos os serviçais eram alforriados e assalariados. O atraso na abolição se deveu aos latifundiários que não queriam perder a mão-de-obra e fizeram pressão sobre o governo. Por vontade própria, o Imperador teria eliminado essa mácula do Brasil muito tempo antes.

Desde 1848, Pedro II se propunha a extinguir a escravidão. Quase meio século na queda de braço contra os “donos da terra e das gentes”. Era comum que sua filha Isabel, com bastante frequência, reunisse negros para saraus em sua casa em Laranjeiras. Algo que chocava os demais “nobres”, na fidalguia tupiniquim instaurada como subserviente cópia das nobiliarquias europeias. Sem os milhares de anos que poderiam demonstrar a origem genealógica das casas reais.

Não só: em Petrópolis, onde a família passava os verões, para fugir à canícula carioca, Isabel ajudava a esconder os escravos fugidos e, além do seu dinheiro, arrecadava importâncias maiores com o seu círculo de amigos, para pagar sua alforria. Herança da sensibilidade de seu pai, o injustiçado último Imperador do Brasil.

Esse brasileirinho criado sem mãe, que aos catorze anos teve de assumir os destinos de sua Nação, era fluente em dezessete idiomas! Mas falava um total de vinte e três línguas! Como comparar com os monoglotas que mal sabem se exprimir e que têm ojeriza por livro, educação, cultura, intelecto e tudo o que possa distinguir um vivente de um irracional?

Tanto Pedro II dominava o árabe arcaico, que cuidou da primeira tradução de “Mil e uma noites” para o português. Desapegado de coisas materiais – as fotografias das residências é prova disso – ele doava metade de sua dotação para instituições de caridade. Cuidou de educar na Europa aqueles jovens que tinham talento e não dispunham de condições financeiras para manter-se no Velho Mundo.

Algo que os brasileiros desconhecem: Pedro II recebeu catorze mil votos de norte-americanos que, no Estado de Filadelfia, para ser Presidente americano. Àquele tempo, os eleitores podiam escolher quem quisessem. Não era preciso haver candidaturas para restringir a capacidade de opção dos detentores do direito ao sufrágio.

Ele era uma liderança global, exatamente porque era erudito e simples. Sua fama dava origem a fatos insólitos. Assim como a intenção de uma americana milionária, irresignada com a derrota na Guerra da Secessão, pleitear que Pedro II anexasse o sul dos Estados Unidos ao Império do Brasil. Sua resposta: “Never!”, muito enfático.

É inacreditável que, àquela época, Pedro II fizesse um empréstimo pessoal para adquirir a fazenda de café na Tijuca. Sem alarde, sem exibicionismo, antes da preocupação ecológica hoje desaparecida no governo, ele fez o completo reflorestamento da área. É por isso que o Rio de Janeiro possui um Parque Nacional da Tijuca.

O que diria o filho do “Defensor Perpétuo do Brasil”, diante da circunstância de seu país ser hoje considerado o “pária ambiental do planeta”, porque destrói não só a Amazônia, como todos os outros biomas?

Existe esse precedente que deveria inspirar os governos subnacionais, diante da omissão e até deliberada atuação ecocida do governo central, para reflorestar os pastos abandonados, as terras exauridas pela monocultura e o grande deserto que poderia servir para o reequilíbrio hídrico e, mais direta e financeiramente, para o processo de descarbonização de que o globo necessita com urgência.

Não é impossível fazer com que terras mortas ressurjam com a cobertura nativa com que foram dotadas pela natureza e pela Providência, desde que o destruidor e insensato bicho-homem se converta.

É por isso e por tantos outros motivos, que sinto saudades do Império. Já pensava nisso quando votei pelo parlamentarismo e pelo retorno da monarquia.

https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/saudades-do-que-nao-vivi/

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